SuperTravessia aka  TRANSPORTUGAL RACE

 

antonio

A primeira vez que organizamos a travessia de Portugal de Norte para Sul foi em 1997. Nessa altura chamávamos-lhe TRAVESSIA DE PORTUGAL.

Já na Travessia de 1999 se tornava óbvio que um grande número de participantes queriam pedalar o mais rápido que conseguiam pelos belos trilhos que lhes tínhamos preparado. Confesso que no início fui relutante em transformar a Travessia numa competição. Não conseguia conceber a ideia de compatibilizar aquele evento que se desenrolava naquelas deslumbrantes paisagens e que se pautava por proporcionar um clima de amizade entre todos, com as realidades de uma competição. Felizmente estava enganado e olhando para o que é agora a TransPortugal Race consegue-se perceber que os atletas não são indiferentes à beleza dos locais por onde vão passando e a atmosfera criada entre todos, participantes e organização, promove a criação de amizades que perduram muito para além da prova.

Em boa hora encontrei uma solução que me satisfazia e surpreendentemente também satisfazia a maioria dos então participantes da Travessia. Desenhei uma prova a que chamei SUPERTRAVESSIA mas não desistimos da TRAVESSIA.

Uma prova pelos mesmos fantásticos trilhos mas em menos dias. Com isto nunca quis que esta prova se tornasse uma prova dura, muito pelo contrário, queria proporcionar a todos o maior conforto possível, de tal forma que a única coisa com que eles se tivessem que preocupar seria as maravilhosas horas que passavam em competição durante os dias da prova. Assim, fui esquematizando a prova bebendo muito do que tinha aprendido com as minhas anteriores participações em provas de BTT por etapas, analisando-as com os olhos de um atleta do meio da “maralha”, e imaginando como poderia fazer melhor, esboçando o que seria a minha prova ideal, a prova na qual eu gostaria de competir. Uma prova centrada no atleta, seja ele qual for, com iguais oportunidades de glória, esquecer tudo o que é chato, supérfluo e complicado para o atleta: sem transportes para as partidas e/ou das chegadas, não dormir em tendas, não ir para filas para receber uma refeição de comida industrial, nunca nos perdermos nos trilhos por deficiente marcação e não ter de carregar com malas após a chegada das etapas. Assim fui rabiscando num pedaço de papel: prova em linha, não a pares, usar GPS e não marcações físicas no terreno, localizadores, sistema de handicaps, hotéis, auto-suficiência, esquecer que é uma prova de bicicletas, em prova de hotel para hotel, as malas já no quarto, comida de qualidade e jantares tipo buffet.

O esboço estava feito, recostei-me para trás e pensei; não há nenhuma prova no mundo com estas características, tenho de criar um regulamento especifico para ela já que os atletas não têm qualquer experiencia em competir desta forma, sem sinais ou fitas penduradas nas arvóres a indicar o caminho e a ter que saber interpretar a navegação num écran de GPS, sem zonas de abastecimento, com partidas antecipadas para quem tem handicaps de idade ou sexo etc,

Em 2003 organizamos a 1ª SuperTravessia e 16 anos passados desde então muito pouco se alterou relativamente a esse esboço inicial: mudou o nome para TRANSPORTUGAL RACE, o número de etapas foi reduzido de 11 para 8, os percursos alteraram, mas aquilo que são os pilares mestres da prova são os mesmos e hoje em 2018, para muitos, a prova é ainda considerada inovadora. Sinto-me feliz por isso. Mas fui sempre orientado pelo meu apreço pelo campo, as grandes paisagens, a genuinidade de tudo o que nos rodeia e a incessante paixão pelo que é mais nobre e puro.

Assim, a Travessia, à semelhança da prova passou a chamar-se TRANSPORTUGAL TOUR e ainda a organizamos com periocidade anual cerca de 2 semanas depois da RACE. Continua a atrair aos poucos que procuram viajar de bicicleta ao longo de um país pelo seu lado mais natural, por trilhos remotos e esquecidos, sem se preocuparem com horas de fecho de metas e procurando infrutiferamente por detrás de uma lente captar em foto cada momento dessa inesquecível viagem.

Para todos os que se aventuram em participar quer no RACE quer no TOUR tudo que me apraz dizer é o que costumo dizer a todos momentos antes da primeira pedalada 

"...Libertem o vosso espirito e deixem-no misturar-se com a beleza e a paz dos locais por onde ides passar. Em breve tomarão consciência de que cresce em vós algo maior que competir, um arrebatador sentimento de gratidão por estarem vivos e puder partilhar este maravilhoso planeta com todos os seres vivos em vosso redor. Como todos os momentos, estes são únicos, mas merecem o melhor do mais puro de vós para os saborearem em plenitude."

António Malvar


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